Entre as cordas de guitarras caxienses

Paulo

Viver através da música nunca foi algo fácil. A falta de bons instrumentos, de espaços para tocar e de público sempre estiveram presentes no início da carreira de músico. A evolução da tecnologia tornou tudo mais acessível, da produção ao consumo musical. Apesar disso, diariamente alguém desiste de se dedicar exclusivamente à música. Em Caxias do Sul não é diferente, porém artistas com mais de 20 anos de carreira garantem que sempre haverá público para um bom músico. O segredo? Correr atrás e aprender com as dificuldades

por ANA SEERIG

Quando, no início da década de 90, a banda Bandida participou do programa Xuxa Park, Caxias do Sul parou. Ou, pelo menos, os jovens rockeiros espalhados pela cidade. Era a grande oportunidade de uma geração que se inspirava em bandas como AC/DC e Led Zeppelin para transformar ensaios de garagem em shows para os amigos. A diversão e a admiração pelos mesmos músicos eram responsáveis por reunir todo mundo, apesar da falta do resto: estrutura, bons instrumentos, conhecimento e, em alguns casos, talento. Os anos 80 foram recheados de aprendizagens através de erros, busca de oportunidades e persistência dos que sonhavam em viver da música, assim aqueles quase quatro minutos de aparição da banda caxiense ao lado da ‘Rainha dos Baixinhos’ foram o primeiro sinal de que o rock local estava amadurecendo.

O guitarrista Rafa Schuler, 42, então integrante da Bandida, chama a oportunidade de ‘jogo de sorte’. O empresário da banda, Renan Palmas Júnior, foi ao Rio de Janeiro e conseguiu chegar à sala de Marlene Mattos. “Ele nos contou que chegou lá sozinho e tinha uma pilha de CDs na mesa dela. Quando ele entregou o nosso CD, Atitudes, ela pegou e colocou em cima da pilha. Depois de uma, duas semanas, ela nos ligou para ir fazer o programa”, relembra.

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Além de não ganhar dinheiro algum pela participação, a banda ainda arcou com todos os gastos da viagem. A oportunidade rendeu reconhecimento na região e aumento na agenda de shows, apesar de não ter conquistado o público nacional. Mesmo depois de 20 anos, a Bandida continua a ser lembrada como a banda caxiense que chegou à Rede Globo.

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Crédito: Ricardo Wollffenbuttel

De lá pra cá muita coisa aconteceu, grupos se separaram e outros surgiram, alguns se mantiveram fieis à música enquanto outros buscaram novos caminhos. Schuler é um dos que permanece músico. Ele divide seu tempo entre a banda Estado das Coisas e seus projetos solos, como Rafa Schuler & Os Mostardas e o sazonal Christmas Rock, além de ministrar aulas de guitarra. “Eu não reclamo de nada em relação a música. Eu acho que tem que sentar, trabalhar e cativar teu público. Pra dar certo, tu tem que te entregar de corpo e alma. Tem a peleia, a gente tem as dificuldades como qualquer profissão, mas sou muito feliz. Eu amo o que eu faço”, garante.

Viver de música

Para o músico Rodrigo Campagnolo, 40, a expressão ‘viver de música’ tem diversas interpretações. Há quem dê aulas, há quem trabalhe com a parte técnica, mas, para ele, desde que começou a tocar profissionalmente, aos 17 anos, o viver de música significa estar em cima do palco. “Eu peguei muito jovem o gosto pelo palco, então eu faço o possível para estar sempre no palco. Muitos amigos meus têm escola ou dão aula, e eles preferem ter a escola durante o dia, a semana, e de vez em quando fazer um show. Eu já prefiro o contrário, dar aula uma tarde por semana e estar ao máximo em cima de um palco”, diz.

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Crédito: Ricardo Dini

Integrante das bandas Capitão Ferro, Hardrockers e Eletric Blues Explosion, Campagnolo teve seu primeiro contato com a música através de aulas de piano aos seis anos. O estudo da guitarra começou aos 14 anos, depois de ter aprendido violão, e segue até hoje. No início, queria ser o melhor guitarrista de todos. Com o passar do tempo, percebeu que isso era impossível e decidiu fazer o máximo para ser ‘um dos bons guitarristas’. “Quando tu é jovem, tu quer ser o melhor guitarrista do mundo. Com o passar do tempo, tu te pergunta: ‘O que é ser o melhor?’. Como é que tu define o melhor? É quem vende mais disco ou quem tem mais técnica? O melhor é uma coisa inatingível, porque tu sempre pode melhorar, mesmo quando tu chegou onde tu acha que é o melhor. Eu não quero ser o melhor do mundo, eu quero ser o melhor que eu posso ser. Porque a partir do momento que tu é o melhor que tu pode ser, é o que tu é. E, no momento que é o que tu é, é de verdade e aí as pessoas entendem isso”, conclui.

Redes sociais

Ex-integrante de bandas como Gargathua e Akashik, Marcos De Ros, 44, está presente na lista 70 mestres da guitarra, violão e outros instrumentos de corda no Brasil, publicada em 2012 pela revista Rolling Stone. Do período em que começou a tocar, lembra da dificuldade de encontrar espaços e equipamento. Tudo era na base de troca de favores e gentilezas, além dos músicos suarem carregando amplificadores pelas ruas da cidade. O lema era ‘Se não tem lugar para tocar, a gente inventa’. “Hoje a internet nos traz muitas possibilidades, mas a gente não aproveita. A gente é extremamente fechado. Temos que olhar mais pros festivais que existem, investir na música autoral. Não adianta esperar aparecer na mídia pra fazer sucesso. Não, é o contrário. Eu tenho que trabalhar a ponto dos jornalistas me ligarem. Se isso não está acontecendo, é porque eu não estou fazendo algo direito”, afirma.

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Com mais de 13 mil seguidores no YouTube e quase 12 mil no Facebook, De Ros diz que, apesar de não render dinheiro diretamente, seus canais o ajudam a se manter como artista, já que é uma forma de atrair a atenção do público para o seu trabalho. Segundo ele, muitos músicos caxienses não estão aproveitando as oportunidades que a internet e a própria cidade oferecem. “Quando eu fiz turnê pela América Latina com o Pablo Soler, levei meus CDs para vender e o selo do financiamento público chamava muita atenção. Quando eu explicava que era uma lei municipal, o pessoal queria se mudar para o Brasil. Eles não acreditavam. Diziam: ‘Na minha cidade a prefeitura fecha os lugares em que tocamos’. E nós aqui em Caxias temos isso e não aproveitamos. Eu tenho que pegar esse material produzido e então conquistar espaço na mídia, não ficar esperando as coisas acontecerem”, observa.

Conquista de público

Quando Roberto Niederauer, 51, começou a tocar com a Psicose, o rock não tinha espaço no país e o grupo foi o primeiro de Caxias a tocar bandas da cena internacional. Um show no Clube Juvenil bateu recorde de público da época e chamou atenção para a banda. Niederauer compara a cena da época com a de agora. Se nos anos 70 a MPB dominava, hoje estilos como o sertanejo e o funk carioca (que está longe de ser comparado ao americano) tomam o espaço do rock. “O último grande ícone do rock foi o Kurt Cobain, do Nirvana, nos anos 90, que coincide com a internet. O que aconteceu? O surgimento da internet, em 94, 95, deu espaço para todo aquele pessoal que estava querendo aparecer. Então hoje um artista, como por exemplo a Katy Perry,  tem toda uma produção por trás, vai durar três, quatro anos e depois some. Antigamente os artistas tinham uma trajetória, tu tinha o contato físico com discos, revistas, camisetas, coisas que hoje não existe mais”, analisa.

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Crédito: Alex Milesi

Em contrapartida, a tecnologia facilitou muito a produção da música. Nas palavras de Niederauer, hoje é possível fazer um álbum com uma qualidade técnica melhor do que a de clássicos como Thriller, de Michael Jackson, e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.   Primeiro músico da cidade a gravar um LP de rock, em 1987,  o guitarrista das bandas Violeta Pop e Os Blugs, hoje regrava o álbum que entrou para a história musical da cidade, apesar da péssima qualidade técnica.

Entre a preocupação com o imediatismo do mundo moderno e o aplauso ao avanço tecnológico, o maior receio de Niederauer está no futuro da música. Segundo o guitarrista, hoje ela se tornou uma mera trilha sonora. “Eu acredito que daqui uns 50 anos, tu vai falar das bandas de rock como tu fala hoje das orquestras antigas. Quem viveu nos anos 40, 50, não tinha DJ nas festas, eram orquestras. Eram 30, 40 músicos que tocavam três horas direto sem amplificador ou outro equipamento. Era um som orgânico. E eu acho que esse é o futuro das bandas. Hoje a tecnologia te dá o som do baixo, da bateria, da guitarra. Quem souber mexer, faz uma música sozinho em dois dias. E nem precisa ser afinado, porque tem programas que arrumam a voz”, explica.

Essa facilitação tecnológica para produção e divulgação, torna o mercado musical muito amplo e o público disperso. Niederauer acredita que hoje faltam rádios que apoiem e divulguem a música local, como era feito nas décadas de 70 e 80. De acordo com ele, não adianta só o poder público investir em projetos através do Financiarte, se a mídia não abre espaço para que os artistas conquistem seu público.

Espaço na mídia

Depois de morar em Porto Alegre, o jornalista Ricardo Dini voltou a Caxias e percebeu que não existia espaço na mídia local para a produção musical caxiense, ao contrário do que acontecia na capital. Com base no que viu na maior cidade do estado, em 2008 Dini criou o Musicaxias na rádio 87,5 FM. Após dois anos, o programa se transferiu para a UCS FM e ficou no ar até 2011. “Com o Musicaxias surgiram outros espaços para a música autoral. O Pioneiro passou a publicar todo dia sobre a música local, a TV Câmara e a UCS TV começaram a dar mais espaços para as bandas daqui. O Musicaxias tornou a música autoral uma pauta relevante”, registra.

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Crédito: acervo Musicaxias

Ainda hoje existem espaços, segundo Dini, inclusive webrádios. Para ele, a divulgação não é mais a culpada pela falta de público das bandas caxienses. Baterista da banda Os Oitavos, o jornalista acredita que o problema atual é a falta de fidelização entre músicos e público. “Há várias bandas boas em Caxias, mas ainda falta um diferencial, algo que faça com que as pessoas divulguem a banda para os amigos. Eu acho que os produtos estão se qualificando, mas ainda não tem algo bom o suficiente que se destaque, que mereça uma projeção nacional, por exemplo. Hoje não se depende mais de um contrato de gravadora, a internet torna tudo mais acessível, mas é preciso ter algo relevante para conquistar fãs. Fã não se perde nunca”, finaliza.

BOX

Grande parte da história do rock caxiense está registrada no documentário Volume Um! Em bom som!, lançado em 2009. As dificuldades, as primeiras bandas, os primeiros hits. Através de dezenas de entrevistas, o diretor Jorge de Jesus narra  em boa parte do que aconteceu no cenário musical da cidade entre o surgimento da banda Lobo da Estepe, na década de 70, e a apresentação da banda Bandida na TV Globo. Financiado pelo Fundo Procultura, Volume Um! tem 80 minutos de duração e exigiu dois anos de produção. “Eu tive a ideia em 2007, mas ela só tomou forma mesmo quando conversei com o Marcelo Mugnol, que tinha uma lista de bares e de bandas que tocavam na época. Então a gente fez uma lista de quem entrevistar, me baseei muito nas minhas memórias, no que eu vivi. Muita gente ficou de fora, mas era impossível colocar todo mundo”, diz o diretor.

Quando era adolescente, Jesus fez parte da banda HPS, junto com Rafa Schuler. Ao concluir que não tinha futuro na carreira de vocalista, passou a auxiliar na produção de bandas, o que fez com que conhecesse muita gente na área da música. “Tudo era muito difícil, a gente comeu o pão que o diabo amassou. Para vender shows a gente ligava de orelhão, por exemplo, mas a gente vendia. As bandas tocavam em Cruz Alta, Farroupilha, Bento Gonçalves. As bandas de hoje já não fazem mais isso, elas ficam presas na cidade, não correm atrás”, afirma.

Além da razão óbvia de registrar a história da música local, um dos objetivos do documentário era justamente mostrar à nova geração que, apesar das dificuldades e do amadorismo, muitos músicos conseguiram firmar uma carreira na cidade e viver do que amam. “Hoje o pessoal está muito acomodado. Eles precisam entender que ter uma banda é como ter uma empresa. Precisa saber se autogerir. Tem que fazer um cartaz legal pro show, divulgar, sair e vender ingressos. Não adianta só jogar na internet e esperar que as coisas aconteçam. Tem que criar expectativas e ter foco. Assim como uma criança, o rock caxiense foi um embrião lá nos anos 80. Agora a criança cresceu, o cenário está aí e tudo está na mão. Essa gurizada tem que aprender a andar e se virar”, resume.

As histórias retratadas em Volume Um! não são únicas. Tudo que aconteceu em Caxias, aconteceu também em outras tantas cidades do país. Por essa razão, o documentário não atingiu um público nacional, mas é um dos maiores registros culturais da cidade. “Vez ou outra me chamam para conversar com a gurizada nas faculdades e isso é o melhor retorno que eu podia receber, nunca pensei que aconteceria. Só que sempre que eu falo com essa gurizada, eu digo: aproveitem ao máximo as aulas de vídeo da universidade, nós precisamos firmar o cenário audiovisual da cidade, assim como a música. Quando me perguntam sobre uma sequência do filme, eu digo: O Volume Dois é da gurizada de agora, eles é quem tem que fazer”, finaliza o diretor.

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2 comentários sobre “Entre as cordas de guitarras caxienses

  1. ramiro disse:

    O mainstream da música caxiense (leia-se, esses que vc citaste no texto) podem até ser fenômenos nos seus instrumentos, porém tem uma péssima cultura musical. Vou citar 3 artistas aqui (para não ficar muito ruim para eles), Stooges, MC5 e Jeff Buckley, para ter apenas uma base do que esses caras não escutam, e talvez, acreditem que esses 3 citados nem sequer tiveram alguma influência no mundo da música, para se entender o grau de ignorância que estou falando. Esses “medalhões” da música caxiense adoram um virtuosismo, citam referências óbvias de mais, e as vezes um tanto duvidosas, ignoram completamente a importância do punk (é capaz de citarem os óbvios Ramones e Sex Pistols quando o punk entra em consideração. E isso não é nem 2% de tudo que envolve punk-rock) e do rock alternativo no mundo da música. Em outras palavras, são pé de chinelo total, apenas músicos provincianos, sem falar que vivem de cover. Agora, nesses últimos anos que parece que surgem bandas originais e de alta qualidade lançados pelo selo caxiense Honey Bomb Records. Para se ter um parâmetro completamente oposto, é só olhar a cultura musical de Porto Alegre e seus Replicantes, De Falla, Graforréia Xilarmônica (que não, não tem apenas em seu repertório a batida amigo punk), Ultramen, Júpter Maça, Cachorro Grande, Bidê ou Balde, Tequila Baby para entender a diferença. Lá virtuosismo fica em segundo plano, aqui ocupa o primeiro. Se nem no mundo isso é regra, alguma coisa está errada nesta cidade.

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