Cultura de casa nova

Espaço para abrigar diferentes manifestações artísticas reúne galeria, boteco e um teatro em construção

Caxias do Sul terá mais um espaço para que artistas interpretem histórias de Shakespeare ou executem performances de dança contemporânea. No teatro, personagens ganham vida, narrativas são contadas por diversas vozes, anos passam em algumas horas. Não há limite no universo de um palco que rompe o tempo e a realidade. Atualmente, a criatividade ganha forma em seis palcos em Caxias do Sul: Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, Teatro Municipal Pedro Parenti (na Casa da Cultura Percy Vargas de Abreu e Lima), São Carlos, Sesc, Sesi e UCS. Num futuro não muito distante, mais um espaço acolherá espetáculos.
O Teatro Moinho da Estação será um complexo de diferentes lugares para manifestações culturais. Um teatro multiuso, sala de oficinas, galeria para exposições fotográficas e um bar farão parte do novo abrigo da cultura na cidade. Localizado na Estação Férrea, ponto de ebulição de novos empreendimentos, o teatro revitaliza um prédio antigo, tombado pelo Patrimônio Histórico, utilizado até pouco tempo como sala de ensaio.
A construção, propriedade da família Tondo, estava acumulando poeira quando um grupo de artistas pediu autorização para ensaiar no espaço, um ginásio de esporte, que passou a ser chamado de Fábrica Espaço Cultural. Com a constatação de que muitos artistas caxienses precisavam de um local para ensaiar seus trabalhos, a ideia de uma entidade que os apoiasse surgiu. Assim nasceu a Associação Moinho da Estação (AME), presidida pela arquiteta Eloisa Tondo. “É um grupo que lida com a parte cultural na cidade e está aberto para qualquer interessado”, afirma a presidente.

Em 2008, o projeto foi aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Ministério da Cultura. O orçamento de R$ 1,5 milhão é captado através da política de incentivos fiscais que permite que empresas e pessoas apliquem parte do Imposto de Renda em ações culturais. Como o prédio é tombado pelo Patrimônio Histórico, a isenção fiscal é de 100%. Até agora, cerca de 30% do valor foi captado através do apoio de empresas e pessoas físicas. A previsão de término das obras é para setembro de 2011.
Arte não é só apresentação ao público, envolve trabalho e estudo. Por isso, o espaço de aproximadamente 5 mil m² contará com uma sala de oficina. De acordo com a produtora cultural Sinara Suzin, idealizadora do projeto e futura curadora do teatro, essa sala servirá não só para ensaio de espetáculos como para workshops, cursos e palestras. “Se um grande nome se apresentar no teatro, posso aproveitá-lo como ministrante de um workshop”, exemplifica Sinara. A maior função do ambiente, contudo, é abrigar artistas independentes da cidade, sem sede fixa para realizar seus ensaios. Segundo Sinara, a sala será um espaço aberto, sem grupo residente. “Reparamos que a demanda de artistas independentes é muito grande”, conta.
A primeira etapa do Teatro Moinho da Estação foi inaugurada com o Boteco 13, filhote boêmio do famoso Bar 13, propriedade de Valmor Berzaghi, e com a galeria de artes. A galeria estreou com a exposição fotográfica Projeto Arquitetura Revisitada, com fotos de diferentes etapas das obras do espaço cultural, realizadas por integrantes do Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul. A galeria fica à esquerda do Boteco 13 e faz a ligação com o teatro. “É um espaço de passagem, integrador dos prédios. É um respiro entre o Boteco e o teatro”, explica a arquiteta responsável pelo projeto do Teatro Moinho da Estação, Jéssica De Carli.

Por ser um ambiente pequeno e aberto, com teto de vidro e vizinho de um jardim, a galeria abrigará somente trabalhos fotográficos, pois não necessitam de iluminação especial e muitos cuidados, diferente de alguns tipos de artes plásticas. “A galeria em si já é uma obra de arte”, diz ela.
Para a arquiteta, realizar essas obras iniciais é uma maneira de mostrar que o dinheiro não está parado esperando um boom de construções, mas sim que está sendo aplicado e que o projeto não ficará somente no papel. “O investidor pode observar onde foi colocado seu dinheiro, como também novas empresas e pessoas podem se sentir animadas a investir”, conta Jéssica.
O Teatro terá um formato chamado black box, ou teatro total, que oferece maior intimidade entre artistas e público. Esse tipo de teatro foi disseminado nos anos 60 e 70 através de peças de teatro experimentais que não exigiam muitos custos. A estrutura é simples e ampla e permite inúmeras possibilidades de iluminação, localização do palco, distribuição de cadeiras. “Será um teatro flexível, que atende a diversos tipos de manifestações culturais”, explica Jéssica.

O teatro terá 250 lugares adaptáveis para acomodar, de acordo com a arquiteta, “de 50 a 800 pessoas, com reajuste das arquibancadas, dependendo do evento”. As referências utilizadas como inspiração no projeto arquitetônico são espaços como o Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, o ‘62 Center for Theater and Dance, de Massachusetts, nos EUA, e o Odeon Black Box Theater, de Bucareste, na Romênia. O Teatro Moinho da Estação terá estrutura adaptável, diferente do Teatro Pedro Parenti, por exemplo, que tem a estrutura do tradicional teatro romano com palco estático e plateia.
Com intenção de transformar o espaço em ponto de encontro de interessados em cultura, a estrutura permite que visitantes circulem no teatro, no Boteco 13 e na galeria. Quem vai para o teatro, pode aproveitar o tempo antes do início do espetáculo para petiscar no Boteco. Ou então, ao sair do teatro, estender a programação aproveitando para visitar a exposição do momento. “Queremos que haja a união de um público distinto, que agregue ao espaço cultural”, afirma Sinara Suzin.
Com essa estrutura pronta e transitável, pretende-se estimular o hábito de consumir arte no público caxiense. Para isso, espetáculos gratuitos devem ser apresentados nas segundas e terças-feiras, sem custo inclusive para os artistas que apresentarão seu trabalho. O compromisso deve valer para o primeiro ano de funcionamento do Teatro. De acordo com Sinara, todos os possíveis candidatos a mostrarem seus espetáculos de maneira gratuita passarão por um processo seletivo, com publicação de edital, inscrição e curadoria específica.
Com essa ação, artistas poderão manter seus espetáculos por mais tempo no circuito. “Uma peça que passou um final de semana somente em outro teatro, porque tem verba destinada somente para esse tempo em cartaz, poderá mostrar seu trabalho por mais tempo”, projeta Sinara.

Com toda a cadeia formada por espaço, público e artistas, a programação é o que deverá vir em seguida. Toda manifestação artística será levada em conta, desde peças dramáticas a apresentações circenses. “O estabelecimento será um centro de entretenimento, lazer e cultura”, afirma Sinara.
De acordo com Eloisa Tondo, responsável pela parte administrativa, o teatro é a coroação do projeto como um todo, que pretende ser autossustentável e perene para a comunidade caxiense. “É a configuração de um espaço cultural, oficializado com a construção do teatro.”
A janela do escritório de Eloisa permite que a obra seja contemplada e, ao caminhar poucos metros, a arquiteta pode conferir de perto os resultados. “Está tudo tão lindo! É a remodelação e valorização do patrimônio histórico”, comemora. Ao olhar diariamente para tijolos, madeiras e cimento, um cenário típico de uma construção, Eloisa visualiza todo o potencial do Teatro em funcionamento.

Fonte: O Caxiense, por Cíntia Hecher

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